Visto que divido quarto com um irmão, não tenho privacidade em casa. Tá tudo sempre cheio de gente, o sobrinho amola, o vizinho tem cachorro, já viu né? Tenho pensado em viajar e passar alguns dias fora, longe do barulho, longe de pessoas, longe das obrigações…

Isto é complicado. Eu li uma vez, e comprovei ao longo dos anos, que o escritor pertence a uma raça que faz de tudo para não escrever. Parece contraditório mas não é. A gente chega em um ponto em que deseja uma situação ideal para poder escrever. Temperatura agradável, brisa fresco, sem fome, sem sede, sem sono, sem barulho, com perfume de glicínias no ar e uma dose da sua bebida preferida. O único ruído é o farfalhar das roupas vaporosas de suas musas inspirando sua obra prima. Eu já escrevi três livros, dezenas de contos, crônicas, textos técnicos, matérias jornalísticas. traduções e nunca tive isto. Por outro lado, já escrevi em cima de um muro na rua, escrevi e escrevo quando vou ao banheiro, escrevi em estacionamentos, em filas de cinema, durante filmes, em qualquer lugar.

Claro que a gente procura a melhor solução possível. Mas hoje em dia, enquanto estou acabando a reforma do meu novo apartamento, estamos morando no primeiro andar de um edifício com mais de 50 anos, em cima de dois botecos “fuleiros”, em frente a um posto de gasolina e na mesma quadra que três barzinhos. Pelo menos um deles só toca blues. O que faço? Uso protetores auriculares. Aquelas borrachinhas que a gente enfia no ouvido. Custa centavos cada par e dura um montão. Desculpe a franqueza mas, como eu preciso ficar lembrando para mim mesmo, pare de arranjar desculpas e escreva. Não importa o que os outros vão dizer, o que vão pensar.

Provavelmente vão brincar, tirar um sarro, vão fazer você pagar mico e não vão entender. Vão achar que você é pretensioso. Mas se, lá dentro, você é mesmo um escritor, com o perdão da palavra, eles que vão à p… que p…, e você vá escrever. Tranque a porta, toque o sobrinho para fora. Se não der certo, lembre que Beethoven compunha surdo, cravando os dentes no piano para sentir as notas, e que Camões perdeu “Os Lusíadas” no mar e teve que escrever tudo de novo. Estes sim são problemas. O que nos aflige, são desculpas. Pare de ler estas bobagens que eu escrevi e, agora, vá escrever.

1 comment for “Visto que divido quarto com um irmão, não tenho privacidade em casa. Tá tudo sempre cheio de gente, o sobrinho amola, o vizinho tem cachorro, já viu né? Tenho pensado em viajar e passar alguns dias fora, longe do barulho, longe de pessoas, longe das obrigações…

  1. 14 de novembro de 2009 at 23:38

    Um dos melhores conselhos que já ouvi. Ou li.

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