Tive a idéia. E agora?

Como um escritor, o que acontece logo depois que você tem uma ideia? Como fazer para colocar em movimento este primeiro passo criativo e transformá-lo em uma jornada?

A inspiração sempre chega quando a gente menos espera. Você está ali no sinaleiro e… plim… chega a “visão”. Está assistindo aquela aula meia-boca (ainda usam esta gíria?) e… clic… vislumbra um universo maravilhoso. Ou está na cama, pronto para dormir e… KAPOW… metade do firmamento atinge você em cheio na testa.

Nestes momentos temos que “materializar” de alguma forma a premissa, fundamento de roteiro ou descrição daquele personagem que há meses vem escapando entre os dedos. E, é claro, se você não tem como anotar porque, por exemplo, está dirigindo, vai ter que dar um jeito. Tem quem sempre leva consigo um gravadorzinho de fita ou gravador digital. Há os que gravam no telefone celular mesmo, ou ligam para a própria casa, se não tem ninguém lá, deixando recado para si mesmo na secretária eletrônica.

Ou, como já aconteceu várias vezes comigo, por estar sem poder anotar ou gravar, telefonei para casa e pedi para minha esposa escrever por mim. Quando isto aconteceu, era sempre um prazer chegar mais tarde na frente do meu computador e encontrar ali o papelzinho.

Já ocorreu de eu estar sem bateria no celular e um KAPOW daqueles me atingiu, e não tinha como parar o carro para anotar, simplesmente fui até em casa, repetindo em voz alta a premissa. Claro… para ela não escapulir. Nestas horas tenho a impressão de que, se a gente escreve ou grava, ou enquanto ficamos repetindo aqueles conceitos, eles ficam ativos e cativos. Tenho medo de confiar na memória e a ideia nova se sentir traída, alçar voo e ir pousar em outros galhos. Já cansei de ver projetos “meus”, com o nome de outros autores, sendo usados e (suspiro) premiados.

Então esta é a primeira coisa a fazer:

Materialize a criação, gravando, em uma anotação em papel, no computador ou no celular. Ou, a menos eficiente de todas, repita para si mesmo até decorar ou poder anotar de forma apropriada.

Ótimo. A ideia está ali ao seu lado, firme, estabilizada, pronta para dar frutos. Para prosseguir é muito simples: aplique a regra de “Equetalse”.

“Equetalse”

Tudo bem. Não é muito honesto escrever a regra do parágrafo anterior daquela forma. E que tal se… eu escrevesse assim… isto, assim mesmo… “e que tal se…”. Simples não é?

Depois da inspiração você se pergunta “e que tal se” meu personagem decidisse subir a montanha? E que tal se o asteroide colidisse com a Terra? E que tal se o cachorro do vizinho latisse bem naquela hora? E que tal se o pneu dianteiro do carro do personagem furasse bem na curva da estrada? E que tal se ela der um beijo nele?

Esta é a segunda coisa a fazer depois de criar: leve o conceito alguns passos adiante. Formule hipóteses. Comece a puxar aquele fiozinho de idéias que outras vêm atrás. Jogue com os conceitos, contraste, colida premissas. E se em vez do personagem subir a montanha ele descobrisse uma mina e descesse, em vez de subir? E se na última hora alienígenas movessem o asteroide? E se o vizinho tivesse um gato em vez de um cachorro? E se não estourar o pneu na curva, e se o personagem estiver de motocicleta ou em um ônibus? E se ele beijar ela? E se, na verdade, ela for um “ele”?

O que quero dizer é, faça de conta que você está vendo na sua frente um desenho em forma de fractal. Um tronco original se divide em dois. Estes dois novos ramos se dividem em dois cada um. E assim por diante. Um vira dois que vira quatro que vira oito que vira dezesseis que vira trinta e dois… e você subitamente tem dezenas de trajetos para escolher. É só escolher.

Este é o terceiro passo: escolha o caminho.

E vamos supor agora que você anotou a ideia, estabilizou o conceito, começou a desenvolver as premissas e escolheu por onde levar seu leitor nesta jornada. O passo seguinte é analisar, desta vez friamente, quais desvios no caminho você tomou. Por onde você está andando agora, e onde será que estes caminhos vão conduzir sua narrativa? Por exemplo:

  • o que o personagem vai encontrar no fundo da mina e quais consequências “aquele artefato” vai trazer para sua vida e para as pessoas de sua comunidade? O artefato vai gerar algum problema (com certeza, né!) e qual (quais) problemas vão ser estes? Como estas pessoas vão resolver estes problemas e como elas vão ser modificadas (literariamente falando) ou como vão evoluir como personagens ao longo da obra?
  • se os alienígenas mudaram a rota do asteroide, qual foi sua motivação, como eles sabiam o que ia acontecer, de onde vem seu poder e o que será que vão querer em troca? Mais importante, como a humanidade, representada pelos personagens principais, vai resolver este(s) problema(s) e como serão modificadas (literariamente falando) ou como vão evoluir como personagens ao longo da obra?
  • se o vizinho tem um gato e um cachorro e os dois brigam “bem naquela hora” em que o ladrão está entrando na casa do seu personagem, como ele, que a esta altura também é um personagem principal vai administrar a crise? Mais importante, como o ladrão e o dono(a) da casa, vai(vão) resolver este(s) problema(s) e como serão modificadas (literariamente falando) ou como vão evoluir como personagens ao longo da obra?
  • …e assim por diante.

Não importa se é um problema com o pneu do veículo ou uma crise com um personagem que aparentemente era “ela” mas na verdade é “ele”, o que interessa para o escritor é saber quais problemas vão advir das escolhas tomadas anteriormente.

E não esqueça o passo seguinte: como resolver TODOS os problemas. Não deixe nada para trás, nem aquele fio de cabelo escondido no lado escuro da cômoda perto da parede. Sempre tem alguém que vai pegar o furo. Note o que foi repetido em cada um dos exemplos: como suas decisões no papel de autor vão criar problemas para seus personagens e como “eles” vão resolver estes problemas, ficando ainda sempre evidente para o leitor como seus personagens estão evoluindo à medida em que enfrentam todas estas crises que você tão generosamente criou para eles.

Você já perdeu alguma ideia? Como você faz para “materializar” seus projetos? Você usa algum artifício no estilo do “e que tal se” para desenvolver suas premissas?

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7 comments for “Tive a idéia. E agora?

  1. 5 de junho de 2010 at 17:57

    Poxa por isso aprecio seu blog! Eu nunca consigo organizar minhas idéias hahaha mas eu tento xD

  2. 28 de julho de 2010 at 11:48

    Ei amigo,
    Para mim, materializar meu pensamento e minhas ideias é um tormento, ainda mais considerando que tenho problemas com o vencimento da inércia… Tens algum conselho ou dica que possa me ajudar?
    PS: Seu blog é um oásis no deserto das dúvidas, parabéns pela iniciativa.
    Flávio Vinícius.

  3. 7 de setembro de 2010 at 14:39

    Olá!
    Acabei de descobrir seu site e me pergunto como não o tinha encontrado antes.
    Estou gostado de tudo que tenho visto.

    Quanto ao meu processo de criação devo dizer que é muito caótico. Minhas idéias vêm muito de sonhos e por isso durmo com um caderninho na cabeceira. Meu celular serve muito tanto para escrever idéias como gravar entradas de voz. Normalmente as idéias que vêm do nada eu escrevo. As gravações ficam geralmente com desenvolvimento de plots já criadas, com idéias de diálogos e meus “E se…”.

    Pois é, em vez de “Equetalse”, os meus são “E se…?” e isso é uma enorme base de tudo que crio. Toda situação que me chama atenção, que presencio, que leio sobre, etc, eu brinco de “e se…” e daí nascem incontáveis histórias.

    Quanto à desorganização das idéias eu sou um perdido. Não sei nem como descrever. Inicialmente, acho eu, crios alguns personagens, lugares e elementos variados, mas o coração mesmo são os conflitos. Para dar forma a tudo isso uso o programa Dramatica PRO, que é uma mão na roda e que me ensinou a ver muita coisa que eu nem sabia que existia.
    Depois de uma estrutura preliminar criada, começo a escrever.

    Eu confesso que NUNCA terminei nada do que comecei. Me perco no meio, perco interesse, perco os motivos que me levaram a escrever aquilo e por aí vai.

    Hoje estou escrevendo a terceira versão de um livro que pretendo diagramar e apresentar como trabalho de conclusão de especialização em Design Gráfico. Para isso, parte de minha inspiração veio do livro “House of Leaves” de Mark Z. Danielewski. Se tudo der certo, ele será como um livro que sempre quis encontrar nas prateleiras e nunca encontrei, fosse no Brazil ou fora.

    Pergunta: existe algum meio hiper-ultra-mega eficaz de se manter os acontecimentos devidamente mapeados para que não nos percamos mais adiante na história? Eu nunca lembro detalhes e ações e perco, por vezes, quase uma hora procurando algo.

    Parabéns pelo site
    C.R. Gondim

  4. Luiz Fernando Santos
    5 de outubro de 2010 at 21:07

    O problema que particularmente enfrento é o de rotina. Como criar meios eficazes de disciplinar a produção?

  5. 13 de fevereiro de 2011 at 2:29

    Bah, muito bom o teu blog, Fabio. Parabéns. Há tempos procurava algo assim, mas não encontrava. Sigo-te e indico-te – estejas certo disso.

    Um abraço!

  6. 11 de março de 2012 at 23:21

    Gostei muito de conhecer este espaço. E mais ainda de dar de cara com esta postagem que trata acerca DA IDÉIA que surge quando menos se espera. e faz-se necessário que, de fato, a gente esteja com papel e lápis.rsrs… é mágico esse instante LUZ.

  7. 8 de novembro de 2012 at 23:15

    meu problema é parar de escrever, não consigo finalizar, me apego muito facilmente a meus personagens e isso me impede de dar um final a historia deles, só agora tive coragem de postar o que escrevo e estou tentando trabalhar isso de colocar um ponto final na historia.

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