Relançamentos: um esporte nacional

futebolPor que ler os clássicos? Italo Calvino deu a melhor de todas as respostas à esta pergunta: Por que é melhor do que não lê-los. Concordo com ele. Ótimo, vamos ler Tolstói, Balzac, Stendhal, Voltaire, Conrad… Mas…

Eu não sei o que acontece na rarefeita atmosfera das academias e editoras. Eles ainda não perceberam que nem só de clássicos vivemos os pobres mortais. E onde fica a literatura de entretenimento? Não me refiro às coisas (nem livros são) descartáveis, pobres de conteúdo, concebidas unicamente visando lucro e que entopetam as prateleiras das livrarias, mas à boa literatura de entretenimento. Aquela que faz o leitor pensar três vezes antes de ligar a televisão, pois “precisa” saber o que vai acontecer com aquela personagem.

O que chamou minha atenção para este assunto foi a quantidade de relançamentos programados até o final do ano pelas editoras. Uma das mais importantes revistas de cultura da língua portuguesa, a revista Bravo, em uma de suas últimas edições trazia matérias sobre Thomas Mann, Jean-Paul Sartre, João Cabral de Melo Neto e Roberto Piva. Além de serem gênios da literatura e da poesia, merecedores de respeito, admiração e um espaço na nossa biblioteca, o que têm eles em comum? São considerados, cada um dentro de sua área, clássicos, e estão sendo Relançados no Brasil.

Onze páginas na Bravo foram dedicadas a relançamentos e clássicos, e uma página para Jamil Snege. Jamil, cuja escrita é chamada, na mesma revista, de “concisa, radical e fabulosa”. Além disto, o que mais diferencia Snege destes clássicos? É que agora eles estão sendo Relançados com capa mais bonita do que a anterior, nova diagramação, papel de maior qualidade (mais caro), impressão melhor, prefácio de alguém famoso e um imenso e dispendioso esquema publicitário. E quem precisa disto?

Se o ato de relançar clássicos fosse realmente encarado como uma missão de escopo cultural, outorgada diretamente dos Deuses e das Musas com o único objetivo de levar cultura às massas, estas obras estariam sendo vendidas para o público em papel jornal, em edição de bolso. É assim que se leva cultura para o povo: barateando seu acesso. Vendendo livros em bancas de jornais. Equeça a capa dura de couro, o tamanho padrão, os filetes de ouro e o papel sem borrão. Seria maravilhoso se todos pudéssemos ter em casa livros assim? Seria. É possível? Não.

“Mas o povão não gosta de livros de bolso, menores e impressos em papel jornal.” Claro que não gosta. O Povão Sem Nome prefere andar de ônibus carregando um livro de 2 quilos em baixo do braço, pois quer fazer musculação e não tem tempo de frequentar academias. O Povão prefere levar no ônibus um livro que pesa tanto quanto um tijolo, pois assim seus companheiros de viagem vão olhar para ele e saber que ele é um erudito. Não é a cor da capa, o tamanho nem a qualidade do papel que vão fazer de um clássico o que ele é. Isto não muda o que foi escrito. É fachada. Não acrescenta nada. Ao contrário, só tira. Tira o clássico da mão do Povão.

E o Povão gosta de ler. O Povão gosta de cultura, gosta de ouvir música clássica. Assisti há alguns anos, em uma praça, no centro de Curitiba, uma apresentação de uma orquestra composta de membros de sinfônicas de várias cidades. Foi uma experiência única. Final de tarde, inverno, céu azul profundo prenunciando geada para a manhã seguinte. As pessoas saindo do trabalho e reunindo-se para ouvir Debussy, Ravel e Mozart. Até hoje penso naquelas pessoas, transformadas em parentes na música, partes da família “Sem Nome”, irmãos e irmãs do Povão, e como elas gostariam de ler um clássico.

Como elas gostariam de “não precisar” ligar a televisão no domingo à tarde e “ter” que assistir Gugu ou Faustão. Ou, pior ainda, assistir em um destes programas uma entrevista com uma pessoa abjeta como Narcisa Tamborindeguy, e descobrir que até ela publicou um livro. E que todos, inclusive ela mesma, acham que aquilo que ela está vendendo é literatura. Só o que ela faz é enfileirar palavras e amontoar parágrafos. Disto, nosso amigo Povão não precisa (na verdade ninguém precisa), mas é justamente o tipo de livro que é produzido barato e ao qual todos têm acesso.

Editores! Acadêmicos! Parem com este ciúme. Os clássicos não são só de vocês. São da história. São nossos. São do Povão. Apesar disto as editoras, como diz um jornalista amigo meu, “ficam requentando medalhões em vez de dar espaço para o pessoal do andar de baixo”.

Eu concordo que em toda atividade comercial ou empresarial deva haver lucro, ou não teríamos editoras nem livrarias. Mas porque ficar insistindo em republicar, relançar, reeditar, requentar, quando existem tantos novos autores e novas obras, esperando vez para tornar-se clássicos? Não sou contra Calvino, muito pelo contrário, mas tenho certeza que existem centenas de escritores e poetas a quem o Povão tem direito de ler. O que se gasta com a publicação de “medalhões”, poderia ser usado para publicar dezenas de novos autores.

Existem muitas obras ainda amargando o escuro do fundo de uma gaveta. Mas elas não estão sozinhas. Estas gavetas são grandes e centenas de outras obras, com certeza algumas clássicas, estão com elas.